Walkabout

Mario Gioia, março de 2020

Para O lugar costuma ser o centro, Claudia Hamerski apresenta novos desdobramentos e abordagens em seu corpo de obra, agora mais colorido e ligado a uma ideia de origem e identidade. A fundamentação no desenho permanece, mas a investigação da paisagem lateral, periférica e menor, além de um comportamento multifacetado em termos de linguagem, podem ser destacados. O processo como dado basilar e disparador de configurações outras, tanto conceituais como plásticas, não pode ser esquecido. A estreia da artista gaúcha em individuais em São Paulo notadamente surpreenderá quem a conhece apenas pelo virtuosismo dos grandes trabalhos em PB, que a fizeram reconhecida inclusive com premiações, como o Açorianos (categoria desenho), em 2016.

Inicialmente, as experiências cromáticas. Após a participação no Programa Artista Convidado do Ateliê de Gravura da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, Claudia desenvolveu séries utilizando a cor e dotadas de mais leveza que peças anteriores. Importante realçar que o lócus catalisador das obras foi Seberi, cidade natal da artista localizada no norte gaúcho. Numa postura mais solta e com o uso de novos materiais, como o pastel seco, os desenhos abrigam uma sensação de liberdade, talvez por uma aproximação identitária entre a autora e o sítio de onde as imagens foram coletadas e, agora, no lugar da arte, ressignificadas. Também ressoam renovadas influências, como os desenhos sintéticos ao extremo do norte-americano Ellsworth Kelly (1923-2015), além da produção de artistas-viajantes e botânicos como a das britânicas Margaret Mee (1909-1988) e Maria Graham (1785-1842).

Ainda em cor e borrando os limites do quadro e do tridimensional, Claudia apresenta desenho alto, de médio porte. A artista lembra que ele parece uma cascata e que guarda os vestígios do fazer e da criação. Em um jogo de esconder/evidenciar, fragmentos matéricos de cor se espalham pela superfície anteriormente alva e se estendem por “barrigas” que ajudam a aproximar a peça do tridimensional. Tal trabalho remete a peças anteriores feitas por ela, como 8B, quando lápis de grafite justapostos (e anteriormente usados na feitura de obras) compunham um estranho skyline, que tanto pode comentar o esgotamento dos processos produtivos (e artísticos, por extensão) como trazer certa melancolia frente aos severos e tumulares horizontes metropolitanos. Agora em Eco, título do desenho, Claudia parece agregar uma magia da cor para amenizar uma aridez do cotidiano que nos solapa rotineiramente.

A urbe não deixa de ser um dado em Periferia, peça instalativa que surge no centro do espaço expositivo da Adelina. Compilação de descartes variados no processo do ateliê, os retalhos de desenho criam um trabalho que não deixa de ser irônico com o triunfo de nossa herança construtiva em artes. Também lida com as contradições entre centro e periferia em variadas camadas de leitura – além de remeter ao título da mostra.

“A importância do lugar para movimentos sociais, para a constituição de identidades culturais, para resistências, contrapontos, sonhos, renovações, devaneios e liberdades está justamente na sua indissociabilidade com nossa experiência e, consequentemente, com nossa existência, ou seja, com o que somos. E para continuarmos sendo, o lugar costuma ser o centro” ¹, escreve Eduardo Marandola Jr. em volume do geógrafo sino-americano Yi-Fu Tuan, pensador-chave na conceituação da obra da artista.

Em O lugar..., Claudia, contudo, não se omite ao exibir grandes desenhos em grafite sobre papel que a tornaram um nome destacado na cena de arte contemporânea do Sul brasileiro. A partir de registros fotográficos feitos quase ao estilo da street photography, ervas daninhas, cantos de mato e vegetações relegadas a um meio-fio de qualquer cidade tornam-se, por ampliação e construção da artista, panoramas de dimensões avantajadas, que são representados com uma pujança selvática. Um inferno verde em preto e branco, com títulos que remetem aos logradouros em que as imagens foram captadas, geralmente ruas de intensa circulação. Nessas paisagens imaginárias, Claudia vai formando, pouco a pouco, uma nova coleção de cenários à margem, mínimos, que adquirem outras presenças. A paisagem contemporânea – urbana, ruidosa, cheia de rastros e vestígios que não podem ser apagados – revela então uma vontade da natureza a não se submeter, mesmo que em escalas minúsculas. Um elogio da resistência e da deriva. Como nos lembra o italiano Francesco Careri: “Uma natureza em que a paisagem pela qual se acabou de passar já foi transformada em uma nova paisagem, onde também nossa presença é causa de novas mudanças e, onde, para caminhar, é preciso ter uma estratégia ou – ao menos – um ritual”².

  1. TUAN, Yi-Fu. Espaço e Lugar - A Perspectiva da Experiência. Eduel, Londrina, 2013, p. 9 e 10

  2. CARERI, Francesco, Caminhar e Parar. São Paulo, Gustavo Gili, 2017, p. 14. 

 

 

 

Texto escrito por Mario Gioia curador da exposição O lugar costuma ser o centro, realizada em 2020 no Adelina Instituto em São Paulo SP - Brasil.

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